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Memórias Analfabetas

Posted in Uncategorized with tags , , , on agosto 8, 2010 by Facciolla

Uma das primeiras histórias minhas relacionadas ao universo do texto escrito, se situa exatamente naquele espaço nebuloso donde não se sabe se a memória emana de uma experiência real ou se trata apenas de uma construção a posteriori – inclusive visual – da “coisa em sí”.

O fato, contado em pormenores por meus pais – a explicação racional da situação, claro, é posterior – se dava quando de meus 2 ou 3 anos de idade. Como meu pai era um leitor inveterado, quase compulsivo, via como impositivo que minha capacidade de leitura viesse, de alguma forma, “de fábrica”. Já que morávamos em cidade praiana, a rede sempre fora um espaço físico importante para as trocas afetivas; mesmo aquelas em que as palavras – tema central deste texto – não se faziam explícitas.

Nela, enquanto me enroscava, como uma cria mimada na barriga grande e pelada de meu pai – como eram engraçados os barulhos que aquela superfície mole produziam; só depois a parte do “sistema digestório” chegaria à minha consciência, sem perdas (a)efetivas da experiência, felizmente – ele me conduzia por aqueles desenhos estranhos e monótonos (e monocromáticos) dentro de uma capa dura com relevos. De alguma forma, mesmo sem saber que os irmãos Grimm tinham encerrado naquelas páginas o que seriam as principais estórias (desculpe o anacronismo vocabular) do mundo prussiano, eu percebia de alguma maneira que o que papai me contava, com uma voz terna e suave, tinha alguma ligação com aquele objeto amparado em sua mão livre.

E fora nesse tipo de situação idílica em que o contar histórias ficou, creio eu, para o bem ou para o mal, indelevelmente associado, na minha cabeça, ao ato de produzir e consumir esses tais caracteres monótonos e monocromáticos. E por essa insistência, talvez, que eu esteja com uma grande vontade de reproduzi-los de uma forma viva, embrenhados de histórias.

De volta à metafísica fenomenológica – seja lá o que isso signifique.

Posted in Uncategorized with tags , , , , on agosto 2, 2010 by Facciolla

Andar no centro me dá um certo bem-estar.

(Eu costumava achar que talvez fosse porque as pessoas lá – moradores ou não de rua – têm poucas frescuras quanto aos ditames da moda dos costumes dessa sociedade mezzo niilista, mezzo artificial. talvez não seja (só) por isso; talvez, nada com isso.)

Num sábado à noite, depois de meia hora perambulando como um fantasma sem alma, dei uma parada à beira do abismo alí no viaduto do chá. me diverti um pouco – pra você ver como uma mente tola pode se entreter – imaginando que o ar, como uma grande camada de flúido em que estamos mergulhados, seria como a água da arrebentação do mar, e os carros, submarinos mal formados a atravessando em alta velocidade. quase consegui ver a arrebentação das ondas. parei quando tava dando vontade de mergulhar.

Ao continuar invisível, parei um tempinho e rosolvi, veja você, parar pra escrever; quem sabe, sentir que alguma musa da praça da Sé suavemente pegaria meu lápis – sim, lápis – e gentilmente berraria pensamentos inconstantes (mas ironicamente belos) em meus ouvidos. no entanto, nada aconteceu.

(Forcei um pouco a mão, e saiu uma baboseira que falava sobre o ato de escrever e sua incapacidade de transmitir o real. pra não cair de novo nessa armadilha kantiana, joguei o papel fora.)

E não mais que de repente, a musa chegou, atrasada: uma menina de seus 15 anos, corpo franzino, uma miniatura de filhote de cachorro numa mão, mochila nas costas e meias rosas encardidas em uma sandalia de dedos, veio perguntar – olha só – se eu poderia dar uma caneta e um papel pra ela escrever uma carta. “Claro”, respondi. “Só que estou sem caneta, pode ser lápis?” – “Pode sim” – “Moço, o que você está fazendo?” – “Ah, parei pra escrever um pouco” – “Mas o que você tá escrevendo?” – “Tentando passar pro papel algumas coisas que eu penso” – “Posso ler seus pensamentos?” – “Pode… só não sei se você vai conseguir entender” – “É, não to conseguindo… lê pra mim?” – …(depois de ler)…  – “você é muito, como é mesmo a palavra? formal” – “Pois é… é que quando escrevo eu fico tentando colocar no papel alguns sentimentos que não consigo explicar naturalmente” – “Você é muito inteligente. Mas será que você não passou muito tempo estudando e deixou de fazer outras coisas?” – “Não sei. Mas eu acho que eu estudei muito pouco; e sempre tento olhar pras coisas pra depois pensar a respeito” – “Por que você nao fala com um psicólogo? Você pode mentir pra ele, pode chorar…” – “Mas eu não quero; e o que eu to escrevendo não tem nada a ver com psicólogo” – “Eu acho que tem” – “… bom, e você, vai escrever essa carta pra quem?” – “Ah, é pro meu marido. A gente separou de vez hoje. Só que ele ainda não sabe… ele disse que quando largasse dele não avisasse… então é por isso que eu estou mandando essa carta”

Depois de mais meia hora de conversa, aquela menina que parecia muito mais adulta que eu em alguns momentos, mas cheia de sonhos juvenis – falava de como queria ter filhos, enquanto colocava no papel pincelado de pequenos desenhos, seu último (ou penúltimo) adeus ao ‘marido’ – me pergunta:

“Você é de Maceió, né?” – “Sim” – “eu sou amiga do Bocão, da banda Mopho” – “É sério?” – Sim, ele até fez uma música pra mim no cd da Casa Flutuante” – “Pô, que massa… eu adoro Mopho” (e cantarolei um pouco de “A carta”) – “Canta de novo pra eu escrever aqui?” – “Claro…”

Com a mesma aleatoriedade natural com que nos falamos, nos despedimos.

E, revisitando (e revirando o túmulo de) Pessoa, a Sé reconstituiu-se-me, sem ideal nem esperança, e o dono do bar, depois da conta paga, sorriu.